Entrevistas

Conversas exclusivas com alguns dos principais nomes do campo da visualização de informação

Conversa com... Santiago Ortiz

Uma visão multidisciplinar sobre a visualização da informação e o futuro das métricas em mídias sociais.

21 de agosto de 2012  |  CATEGORIAS: Entrevistas

Information designer Santiago Ortiz

(photo: Santiago ortiz)

Um dos nossos primeiros posts aqui no Visual Loop Brasil fez referencia à Data Visualization References Network, um recurso para quem se interessa pelo assunto da visualização de informação, criado por Santiago Ortiz -

O nome é bem conhecido no meio. Considerado por muitos como um dos principais símbolos da vanguarda do design interativo, Santiago iniciou a busca por um entendimento superior das possibilidades escondidas por detrás de grandes volumes de dados em 2005 – e é uma busca sem fim à vista.

Nascido em Bogotá, na Colômbia, o seu trabalho já foi reconhecido internacionalmente, já ministrou aulas em universidades e foi palestrante em grandes eventos como a VISWEEK, FutureEverything, VizEurope, STRATA, SocialMediaWeek, NYViz, OFFF e ARS ELECTRONICA.

Ainda assim, o cofundador do ‘tanque criativo’Bestiaro.org parece estar longe de se dar por satisfeito, quando o assunto é experimentar, inventar e desenvolver formas mais eficazes de comunicar através de dados.

O seu histórico profissional multidimensional, a sua mentalidade de ‘cidadão do Mundo’ e o desejo incontrolável de desafiar as fronteiras da interação visual fazem com as suas opiniões sobre o campo da visualização da informação sejam, no mínimo, importantes, e é um prazer para nós trazermos algumas dessas perspectivas nesta entrevista exclusiva.

Visual Loop (VL) – Um dos aspectos mais interessantes da visualização da informação é a imensidão de campos de atuação na qual ela pode ser aplicada, não acha?

Santiago Ortiz (SO) – Para mim, esse é o ponto mais interessante da visualização da informação, e é talvez a principal razão de eu ter decidido trabalhar neste campo. Em 2005, eu estava trabalhando simultaneamente em dois projetos colaborativos: Quiasma, que era baseado em um conjunto de tags de arquivos de mídia: fotos, áudio e videos de diversas viagens por várias regiões da Colômbia, e no GNOM, um projeto de pesquisa que tinha como objetivo explorar técnicas de visualização interativa aplicadas a uma rede genética. Os conjuntos de dados eram claramente diferentes em termos de sentido e em termos da realidade a que estavam associados. Do ponto de vista da estrutura, eles também eram distintos: um era uma lista de elementos com ‘tags’ e o outro descrevia uma rede.

Eu peguei o primeiro conjunto e através de um método clássico contruí uma rede, associando os elementos com ‘metadados’ similares. E me apercebi que ambas as redes, a genética e a ‘cultural’, tinham quase o mesmo número de ‘nós’ e relações. Foi apenas um passo para ter ambos os conjuntos de dados analisados pelo mesmo método.

Achei isso espantoso. Se a visualização da informação é uma linguagem, o que significa poder usar o mesmo vocabulário e gramática para expressas realidades tão diferentes?

Nesse ano, apresentamos o Quiasma e o GNOM na Ars Electronica – o tema dessa edição era ‘hybrid identities’ (Identidades híbridas, em tradução livre)–, colocando lado a lado ambas as visualizações (isto é, a mesma visualização aplicada a dois conteúdos completamente diferentes entre si).

A pergunta continua sem resposta, e o espanto ainda se mantém. Trabalhar neste campo permite (obriga) a que naveguemos por realidades e contextos culturais, técnicos e científicos completamente diferentes. Realidade é tudo o que é uma fonte de informação. E a nossa cultura está ficando cada vez mais obcecada em converter toda a fonte de informação em uma fonte de dados. Com mais pessoas e mais companhias produzindo visualizações de dados, a Realidade está sendo mapeada pelas suas próprias representações!

A nossa cultura está ficando cada vez mais obcecada em converter toda a fonte de informação em uma fonte de dados. Com mais pessoas e mais companhias produzindo visualizações de dados, a Realidade está sendo mapeada pelas suas próprias representações!

VL – Você focou uma boa parte do seu trabalho em torno do conceito de ‘espaço digital’. criando e experimentando com interfaces e visualizações interativas. Explique-nos um pouco sobre esse conceito.

SO – Eu utilizo o vago conceito de ‘espaço’ para assinalar a ideia de que uma interface pode ser experimentada como um ‘local’, no sentido em que as pessoas podem ter a noção de movimento, deslocamento, a sensação de estar mudando de posição dentro de uma estrutura que oferece um ponto de vista de acordo com a posição.

No caso da visualização da Informação, o conceito de ‘espaço’ aplica-se principalmente a interfaces exploratórias.

VL – Na sua visão, o que poderia ser feito para transformarmos as muitas críticas voltadas a maus exemplos de visualização de informação em algo mais positivo e proativo para aqueles que ainda estão começando a explorar esse campo?

SO – Uma história que eu costumo contar é aquela do velho e da criança que vão à cidade para vender um jumento. Primeiro, o velho monta no burro e a criança vai caminhando. Uma pessoa olha e critica o fato da criança ter de caminhar (trabalho infantil!). Eles trocam, a criança sobe no animal, e mais à frente outra pessoa se indigna com o fato do idoso ter de caminhar (falta de respeito com os mais velhos!). Ambos montam no burro, o que result5a em novas críticas (abuso de animais!). Finalmente, eles chegam à cidade, ambos caminhando, e toda a gente se ri deles por não terem aproveitado um meio de transporte tão óbvio.

Eu acredito que a visualização da informação é apenas uma linguagem com tudo ainda para ser descoberto, e não iremos encontrar nada de espetacular sem termos errado primeiro. O futuro da visualização da informação está sendo moldado por projetos que falham em muitos sentidos e que são bastante criticados.

Sempre que leio algo do tipo ‘Tufte não aprovaria…’ me lembro que Einstein nunca aprovou a Mecânica Quântica e por muitas décadas insistiu que o universo era estático, Gandhi era um misógino, em 2004 Bill Gates previu o fim do ‘Spam’ em dois anos, etc.

E também me lembro da frase de Tufte: “A maioria dos princípios do design deve ser olhada com algum ceticismo… podemos estar apenas vendo através das lentes da autoridade que os escreveu e não com nossos próprios olhos.” – Edward Tufte, The Visual Display of Quantitative Information.

Sempre que leio algo do tipo ‘Tufte não aprovaria…’ me lembro que Einstein nunca aprovou a Mecânica Quântica e por muitas décadas insistiu que o universo era estático

VL – O volume de dados sendo gerado pelos sites de mídias sociais é algo excitante e que abre imensas possibilidades para quem trabalha com visualização de informação. Quais os principais desafios neste campo

SO – Os dados originados das mídias sociais são fantásticos. Em termos semânticos, contem todos os tipos de usos de linguagem, intenções e texturas, e claro, ironia em todas as formas possíveis e imagináveis. Isso torna a análise desse conteúdo em algo desafiador.

Em termos de estrutura, é também extremamente rico: milhões de pessoas interagindo com texto a velocidades incríveis. Os projetos mais bem sucedidos na análise de dados das mídias sociais são, com algumas exceções, visualizações estáticas. O emoto pe uma dessas exceções, lançado recentemente. Outro projeto recente e que eu particularmente acho muito bom é o Twiplomacy, que foca um determinado gerupo de usuários do Twitter. Mas neste campo, está tudo ainda para ser feito..

VL – E quanto a novos projetos? Pode compartilhar algo conosco?

SO – Estou envolvido em vários projetos ao mesmo tempo, a maioria sendo pesquisas menores, e alguns grandes.

O próximo a ser publicado por acaso é sobre mídias sociais: um conjunto de ferramentas exploratórias interativas, sendo a primeira destinada a comunidades dentro do Twitter. Por comunidade quero dizer grupos de usuários que interajam entre si frequentemente. Muitos desses grupos são extremamente importantes. O Twitter não é apenas uma pilha de mensagens, uma imensa coleção de linhas do tempo, existem muitas estruturas baseadas em relacionamentos dinâmicos entre pessoas reais. As redes não são definidas apenas por seguidores/seguindo mas também – e na minha opinião, muito mais importante – pela atividade. O Twitter é extremamente orgânico, muito mais do que qualquer outra rede social.

No Facebook, ou você é amigo de alguém, ou não é. E não existe uma forma de você seduzir, cativar essa pessoa e persuadi-la a se tornar seu amigo. Já no Twitter, um relacionamento é algo que você pode construir e crescer. Esta abordagem requer bastante inteligência social e um novo tipo de ‘ciência do marketing’. E isto é realmente importante, porque dentro de uma comunidade pode estar um grupo de pessoas com quem você mantenha um diálogo interessante, aprender, se mostrar e ter acesso a oportunidades. Uma comunidade pode ser o nicho do seu negócio.

A análise de sentimento e, de uma maneira geral, as habituais métricas de mídias sociais exibem resultados nos quais a informação sobre ‘quem disse o quê’ se perdeu: a informação do ‘quem disse’ vem de uma lado e a informação do ‘o quê’ de outro. É como consumir os alimentos e jogar fora as vitaminas e os demais nutrientes. Métricas orientadas para as comunidades se baseiam em abordagens diferentes, que tentam oferecer às pessoas conhecimento sem abdicar do contexto social. Acho que a análise de comunidades é o próximo grande desenvolvimento no campo das mídias sociais.

Tem um outro projeto que iriei apresentar em breve. Não quero adiantar muitos detalhes, exceto que é muito relacionado a este fantástico projeto lançado recentemente: Movie Galaxies.

Todos os projetos em que estou envolvido atualmente podem ser enquadrados naquilo que eu chamo de ‘visualização de diálogos e conversas’, um campo que mescla análise de texto e de redes.

Métricas orientadas para as comunidades se baseiam em abordagens diferentes, que tentam oferecer às pessoas conhecimento sem abdicar do contexto social. Acho que a análise de comunidades é o próximo grande desenvolvimento no campo das mídias sociais.

VL – Obrigado, Santiago! Ficamos aguardando por esses novos projetos!

SO – Obrigado!

 

Agradecemos ao Santiago por ter aceite o nosso convite para responder a estas perguntas e novamente por incluir o nosso Tumblr na Data Visualization References Network. Voc~e pode se conectar com ele no LinkedIn e acompanhar as atualizações no Twitter (@moebio). O seu portfólio completo está disponível em moebio.com.

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