Por Infogr.am

Chiqui Esteban

Prestes a embarcar para Boston, um dos grandes nomes da infografia espanhola falou conosco.

setembro 10, 2012
(foto: Chiqui Esteban)

Muito antes da explosão de infográficos na Internet, quem queria ter contato com o que de melhor se fazia nesse meio não precisava ir muito longe: bastava visitar, por exemplo,  o  Infographic News, a ‘casa digital’ do jornalista e infografista espanhol Chiqui Esteban.

Essa presença online, juntamente com a sua rica carreira profissional, tornaram o nome de Chiqui reconhecido no cenário editorial, em especial quando o assunto é infografia. Desde 2009  estava como Diretor de Novas Narrativas no  lainformacion.com, além de prestar consultoria através da Innovation Media Consulting.

Agora, prestes a embarcar para um novo desafio no Boston Globe, Chiqui conversou um pouco conosco sobre a sua carreira, a ascensão da Espanha enquanto ‘potência’ infográfica, e sobre os seus projetos online, incluindo o  World Map of Infographic Journalists.

Visual Loop (VL) – O seu passado profissional está de alguma forma associado ao Malofiej Awards, não é verdade? Conte-nos como isso aconteceu.

CE – Estudei jornalismo na Universidade de Navarra, a casa dos Prémios Malofiej. Eu já sabia que eu queria ser infografista, e ir para Navarra foi a melhor opção. Acabei fazendo parte da equipe do Malofiej, ajudando o júri com traduções e também com as oficinas. Foi ótimo, porque todos os anos eu ouvia alguns dos maiores nomes da infografia falando sobre o que é um bom ou mau infográfico, e porque eles gostavam de alguns e não de outros. E poder ver centenas dos melhores trabalhos do mundo a cada ano, isso me ajudou muito.

VL – E como vê a evolução dos Prêmios, desde essa época? Alguma mudança em particular ou nova tendência?

CE – Penso que o Javier Errea e o Álvaro Gil estão fazendo um trabalho fantástico. O Malofiej manteve o mesmo espirito e eles conseguiram adapta-lo aos novos tempos de forma excelente. Acho que é o melhor evento de design editorial do mundo e é onde todo infografista quer estar. Existem, claro, controvérsias. Mas isso tem sido assim desde o inicio. Quando se atribuem prêmios, você sabe que vai ter gente reclamando.

VL – No contexto global da infografia, a Espanha vem despontando como uma ‘potência mundial’, com nomes como Alberto Cairo, Jaime Serra e outros (além de você) sendo apontados como referência internacional e inspirando novos talentos. O que está por trás deste sucesso?

CE – Obrigado, mas eu ainda não me incluo entre esses nomes. Espero vir a ser, um dia, e tento aprender mais diariamente para consegui-lo, mas esses são grandes nomes. Não sei exatamente porque a Espanha é tão forte, mas tenho as minhas teorias pessoais. No final da década de 80, um novo jornal nasceu: El Mundo. Eles deram muita enfase à parte visual, com gráficos e ilustrações excelentes. E foi um enorme sucesso. Com isso, todos os outros tentaram seguir o mesmo estilo, e as redações começaram procurando por pessoas capazes de desenvolver gráficos.

Pouco depois, durante a primeira guerra no Iraque, os jornais espanhóis cobriram os acontecimentos com infográficos de suas páginas, coloridos, e com uma intenção clara de oferecer informação de forma mais visual. Então, aí está uma geração brilhante. E esses profissionais foram os melhores mentores para a geração seguinte. E aí, no meio de tudo isso, chega a Era Digital.

Nessa época, o grande nome era Mario Tascón, antigo editor de infografia do El Mundo (de novo ele) que encabeçou o projeto de construir o primeiro site do jornal e começou a pensar como os gráficos poderiam se adaptar ao digital. Em breve, ele se mudou para o El País e fez a mesma coisa. E estavam criados os dois primeiros departamentos de gráficos online do mundo:o El Mundo com o Alberto Cairo à frente e o El País com Rafa Höhr e o Christian Werb.

Não sei exatamente porque a Espanha é tão forte, mas tenho as minhas teorias pessoais. No final da década de 80, um novo jornal nasceu: El Mundo. Eles deram muita enfase à parte visual, com gráficos e ilustrações excelentes. E foi um enorme sucesso.

VL – A Internet foi um divisor de águas para a indústria. Muitos ainda estão tentando entender como se encaixar nesta nova realidade de consumo de informações, e alguns simplesmente não sobreviveram. Quais são os componentes chave para abraçar este mundo digital, e que exemplos pode dar-nos onde essa transição foi bem sucedida?

CE – Eu não sei o futuro. E talvez seja ainda muito cedo para dizer que já se tenha concluído a transição digital. Mas é óbvio que a internet nos oferece mais ferramentas para explicar uma notícia: vídeo, animação, interação, sem limite de papel, a possibilidade de atualizar o conteúdo… E os profissionais de infografia estão acostumados a dominar diferentes ferramentas, habituados a estar na vanguarda da inovação nas redações, e por isso abraçaram essas tecnologias para criar peças de conteúdo visual mais completas do que simples texto.. Acho que as pessoas que vêm de departamentos gráficos adotaram o pensamento digital muito melhor do que os escritores (claro, isso não é de forma nenhuma uma generalização absoluta). Hoje temos muitos meios para receber informações e notícias. Explicar visualmente faz uma grande diferença na hora de dizer às pessoas: ‘Ei, todo mundo está dizendo a mesma coisa’. Nós queremos explicar, e não apenas dizer. E temos todas as ferramentas possíveis para fazer isso melhor do que com um texto, um tweet ou um vídeo. Mas não podemos esquecer que, por vezes, um texto, um tweet ou um vídeo pode ser melhor do que um gráfico.

Os profissionais de infografia estão acostumados a dominar diferentes ferramentas, habituados a estar na vanguarda da inovação nas redações, e por isso adotaram essas tecnologias para criar peças de conteúdo visual mais completas do que simples texto.

VL – Infographics News está entre os principais sites sobre infografia e visualização de informação no mundo inteiro. Qual a importância, tanto a nível profissional como pessoal, de manter essa presença na Internet?

CE – Eu tenho que recomeçar a escrever. Nos últimos meses tenho estado muito ocupado e abandonei o blog por um tempo, mas eu nunca vou largá-lo completamente. Ele tem sido extremamente importante para mim, me ajudou a conhecer muitas pessoas, me obrigou a estar por dentro do que estava acontecendo no mundo dos infográficos. Então, é como estudar, como estar de volta ao meu tempo como estudante, ajudando no Malofiej: Observando muitos infográficos, escutando opiniões de todo o mundo … aprendendo.

VL – O World Map of Infographic Journalists é uma iniciativa bem interessante. Conte-nos um pouco sobre esse projeto.

CE – Mais uma coisa que preciso retomar. O Mapa era bem maior, mas totalmente aberto, de forma a que qualquer pessoa podia se adicionar. Um dia, alguém apagou todo o conteúdo. Perdemos tudo. Tentei reconstruí-lo e estou ainda nesse processo. Por isso, agradeço a quem me enviar novamente os dados para continuar a atualização.

Queria que ele fosse um ponto de encontro. O Jumping Jester (o conhecido ‘pub’ onde toda a gente se encontra no Malofiej) da Internet. Muitos infografistas e jornalistas gostam de conhecer outros departamentos e redações quando viajam. O mapa pode funcionar como um guia de ‘quem é quem’ e onde estão.

Nós queremos explicar, e não apenas dizer. E temos todas as ferramentas possíveis para fazer isso melhor do que com um texto, um tweet ou um vídeo. Mas não podemos esquecer que, por vezes, um texto, um tweet ou um vídeo pode ser melhor do que um gráfico.

VL – E agora, um novo desafio nos EUA! O que nos pode contar sobre o que estará fazendo no The Boston Globe?

CE – Bem, ainda estou aguardando o visto de trabalho, então, dedos cruzados! Estou muito excitado. O The Boston Globe é um dos melhores lugares do mundo para se fazer jornalismo, e eles têm uma equipe de visualização e infografia fantástica, liderada por alguém que eu admiro desde os tempos do Malofiej, Javier Zarracina. à parte disso, o design em geral, a abordagem tecnológica e a forma como eles trabalham com gráficos é revolucionária. Na minha opinião, um dos lugares mais excitantes para se estar trabalhando atualmente. A abordagem que eles fazem da informação, rigorosa mas diferente, inovadora mas ao mesmo tempo clássica, é o sonho de qualquer infografista – pelo menos, para mim.

VL – Muito obrigado, Chiqui!

CE – Obrigado, Tiago!

 

Desejamos o maior sucesso ao Chiqui em Boston, e agradecemos novamente a disponibilidade  para responder a estas perguntas . Para conhecer mais do seu trabalho visite o portfolio o  blog , e conecte-se com ele no Twitter.

Escrito por Tiago Veloso

Tiago Veloso is the founder and editor of Visualoop and Visualoop Brasil . He is Portuguese, currently based in Bonito, Brazil.

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