Socióloga. Professora de Sociologia do Turismo e de Ética e Responsabilidade Social na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Investigadora do Cies-Iscte.IUL, Portugal

Realidades Incrustadas

A socialização primária com as estórias interativas reconfiguram os processos de aprendizagem e de ensino.

10 de setembro de 2012  |  CATEGORIAS: Colunas, Nômadas Globais

Há quase trinta anos, na minha primeira aula como caloira universitária, explicava o professor de economia (sim, porque sociologia tinha toneladas de economia), que o mundo estava a mudar aceleradamente e que nós não sabíamos a sorte que tínhamos. Era nossa obrigação sermos alunos brilhantes, já que a vida académica nos estava bastante facilitada. Existiam fotocopiadoras, quando no tempo em que o professor tinha estudado, era preciso ir às bibliotecas e fazer fichas de leitura sobre os livros. Agora podíamos fotocopiar e estudar confortavelmente em casa. Note-se que à época os livros eram raros e caríssimos e as Associações de Estudantes encarregavam-se de organizar umas sebentas com os textos obrigatórios, que vendiam a preços muito baixos. Portanto, dizia o professor, tendes a vida completamente facilitada e não imaginais a dificuldade que era estudar no meu tempo.

(imagem: Old Books, do usuário do Flickr DavidFlores)

Estudávamos por fotocópias, já que os livros eram um luxo raro e escrevíamos os trabalhos manualmente. Os professores iam carregados de livros para a sala de aulas, para manusearmos, emprestavam-nos os livros e como tínhamos aulas de manhã, a esmagadora maioria dos professores estavam toda a tarde nos gabinetes, para nos atenderem, explicar matérias, tirar dúvidas, ajudar-nos nos trabalhos. Cinco dias por semana.

Fumava-se em todas as aulas. Professores e alunos. Em algumas até se comia e bebia. Eu tinha um gato siamês, bebé, que levava para as aulas dentro da mochila e que passava as aulas a dormir em cima da secretária.

Tínhamos cinco disciplinas anuais e vários trabalhos individuais e de grupo, com apresentação e discussão oral. A bibliografia para cada trabalho era constituída por muitos livros e muitos textos. Umas boas centenas a milhares de páginas.

Uma minoria dos alunos datilografava os trabalhos, a maioria entregava-os escritos manualmente. Cada turma tinha vinte alunos. As aulas do 1º ano eram leccionadas pelos professores catedráticos ou pelos regentes da disciplina.

Trinta anos depois poderia dizer aos meus alunos o mesmo que dizia o meu professor de economia. Existe a Internet, talvez a maior revolução do século XX depois da pílula anticoncepcional. A ligação em rede à escala global, as bibliotecas virtuais, repositórios de material científico à escala global, textos, imagens, infografias explicativas e amigas da compreensão rápida dos fenómenos, mas tenho dúvidas que essa seja a leitura mais adequada.

Tenho-me vindo a interrogar, tal como diz Giddens a propósito das instituições, quando fala em instituições incrustadas, isto é instituições que mantém o mesmo nome, como a família, o casamento ou outras, mas cujo conteúdo é radicalmente diferente, se o mesmo não se aplicará à educação, com novas formas de ensino, aprendizado e partilha tão distintas da realidade de há três décadas.
Os recursos hoje existentes e a socialização primária com a televisão, o vídeo, os jogos de computador, as estórias interativas e as múltiplas aplicações que as tecnologias permitem reconfiguram necessariamente os processos de aprendizado  e de ensino. Não só como ferramentas, mas como processos que afectam a forma de pensar.

Fará algum sentido hoje falar no “meu tempo” como contraponto normativo, positivo ou negativo face a um mundo, que desconfio, que mais do que em acelerada mudança, se constrói como novos territórios, onde a própria realidade é hoje uma realidade incrustada?

Até breve. Boas viagens!

 


+ Mais | Colunas, Nômadas Globais
Leia também outras postagens relacionadas a este conteúdo
  • Comentários ()
    Participe, comente, compartilhe conosco o que você achou