Por Infogr.am

Estética de precisão

O talento gráfico deve trabalhar em conjunto com o conhecimento multidisciplinar

setembro 24, 2012

Infografistas costumam categorizar infográficos da seguinte forma:

Matador, impressionante, fud…, entre outros termos, porém quase sempre a avaliação está relacionada a forma final, ou seja como foi “embalado” para publicação. Algumas vezes a imagem é tão fascinante que os detalhes da informação passam despercebidos, ou sequer estão presentes.

E assim que a infografia deve ser lembrada?

É esta a função da infografia?

Apenas impacto?

Infográfico da National Geographic sobre os 50 anos das missões planetárias não tripuladas. Produzido por Sean McNaughthon/National Geographic Staff e Samuel Velasco/5W Infographics.
Este excelente exemplo demonstra a correta utilização de informação e design.

A infografia está evoluindo conceitualmente, mas somos irremediávelmente apaixonados pela harmonia do design. Contudo, ao atingir o nível de excelência visual, muitas vezes não temos o mesmo cuidado com a informação, que fica relegada a um coadjuvante do trabalho.

A alguns dias atrás, quase caímos (eu e o pessoal da infografia da Época) nesta tentação, tínhamos nas mãos uma pauta que nos levou a uma solução visual bastante interessante e elegante estéticamente, porém a pauta sofreu alterações, e o formato que havíamos garimpado ficou quase sem função. Após muita discussão, decidimos manter a idea original, mas fomos acusados por uma frase constante no vocabulário do Alberto Cairo:

A forma segue a função!

Por esse motivo e após mais discussões abandonamos a forma perfeita para que a objetividade e efetividade fossem mantidas – e por falar em efetividade, é isso que gostaria de considerar.

Quando nos interessamos em ingressar na infografia, somos cativados (quase que inconscientemente) pela forma, design, ilustrações e outros elementos visuais (acredito que grande parte se aproxime pela virtuosidade das imagens). Mas quando integramos algum departamento que leve a infografia a sério, somos confrontados a pensar, não com foco apenas no produto final, mas sim em desenvolver o raciocínio jornalistico que antecede ao design. Pensar em apuração, ordem, clareza e precisão.

Nesse caso, a infografia pode se tornar um fardo para quem não tem o espírito investigativo, e precisa encarar muitas horas em busca de informações, números e empreender mais esforço ainda em traduzir corretamente a pauta. Ao observar as informações que são necessárias para um info de economia, o aspirante a infografista pode ser supreendido por algo que nem de longe se parece com a área profissional que ele escolheu.

Um infográfico sobre física teórica, exige conhecimento de física e muita disposição em traduzir conceitos abstratos de forma clara.

A partir deste raciocínio é natural que alguns processos do universo infográfico sejam áridos, se o foco for produzir apenas belas imagens e não notícias. Um infografista por essência deve ter o gene do jornalista, ser um investigador nato, que “escreve” sua matéria com imagens, conceitos e cores.

O talento gráfico deve trabalhar em conjunto com o conhecimento multidisciplinar, assim como é a infografia, e assim como os conceitos desta disciplina estão se desenvolvendo, os infografistas tem de evoluir.

Hoje temos infografistas se aperfeicoando em jornalismo e estatística, aos poucos a infografia dos anos 90 (onde a ilustração era o principal elemento) está perdendo a força. Isso não quer dizer que os infográficos são menos estéticos, pelo contrário, nunca foram tão estéticos, mas com muito conteúdo.

A crítica não é dirigida a imagem, mas sim a imagem sem relação, a imagem pela imagem sem fundamentação, a imagem que não exprime o lide, a imagem que ignora a pauta. Um infográfico que só utilize de imagens perfeitas mas não tenha conteúdo se torna incipiente não cumprindo sua função, informar.

A internet está repleta de trabalhos que representam os dois lados a beleza X informação, mas poucos são efetivos nos dois quesitos. Temos uma divisão de critérios que discute a infografia estética X analítica.

Um lado gasta a maior parte do tempo na imagem enquanto outro disseca a informação. Particularmente sou partidário de usar o melhor de cada lado em todos os infográficos.

Quando falamos de obter informação temos de ser objetivos, e se a imagem altamente trabalhada não obscurecer a informação, então ela deve ser usada. Vejo a informação como um produto e o leitor como consumidor deste produto. Então, partindo deste raciocínio, quem consome quer obter qualidade em todos os níveis, da qualidade da informação à qualidade da imagem final.

A Ferrari produz carros com design impecável, porém sua forma tem uma função específica: fluidez aerodinâmica e velocidade. A Apple produz celulares, computadores e softwares com design esmerado buscando a perfeita interação entre o usuário e máquina. Esses são dois exemplos de estética de precisão, onde a função do produto também é determinada pela estética que tamém é uma função.

O leitor é um consumidor, e como qualquer outro ficou exigente. A infografia é um produto de informação, então ela também deve usar estes conceitos. Primeiro, buscar precisão e objetividade e depois produzir a melhor forma gráfica possível.

Escrito por Gerson Mora

Twenty-two years dedicated to infographics in major Brazilian publications. Currently, besides producing, also researches new applications for information design as a communication language.

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