by Infogram
Crie infográficos

Tattiana Teixeira

O estado da infografia no Brasil e o papel das universidades na inovação.

dezembro 10, 2012

[Esta entrevista é da autoria do Marco Vergotti, Editor de infografia da revista Época, Editora Globo]

 

A minha participação na seção de entrevistas do Visual Loop teve inicio a partir de um convite que o Tiago me fez a partir de várias conversas que nós dois tivemos sobre a quantidade e qualidade da infografia produzida aqui no Brasil. Na minha opinião estamos muito perto de grandes referências, como Espanha e EUA, e contamos com grandes profissionais e também com grandes obras já publicadas e premiadas.

Já exploramos diversos estilos estéticos e de análise, alguns trabalhos ficaram ótimos e outros nem tanto mas isso faz parte do processo de criação. Eu penso que não adianta se lamentar tanto com trabalhos que não deram certo porque sempre teremos uma próxima oportunidade e uma outra edição a se fazer. Hoje, a infografia tem espaço garantido dentro das redações e sabemos também que a relevância se estende dentro do mercado publicitário e começa a ganhar mais espaço no mundo corporativo – talvez esteja aí o futuro da infografia, fiquem atentos! 😉

O motivo desta entrevista é também uma tentativa de orientar estudantes de jornalismo e design que tem interesse em infografia a desenhar um traçado dentro do jornalismo visual. O Brasil já dispõe de informações sobre o assunto mas ainda é muito escasso em relação ao mercado lá fora e eu acho que é preciso incentivar publicações voltadas ao mercado brasileiro como forma de orientação didática e disseminação desta disciplina. Algumas iniciativas já estão dando bons frutos como o caso do Infolide que organiza todos os anos workshops e palestras sobre infografia além de contar com uma mostra regular do que de melhor acontece por aqui. E esse registro que eles fazem é importante como documentação histórica dos trabalhos realizados por aqui.

(foto: Profª Tattiana Teixeira)

E para entender um pouco mais o momento atual que a infografia atravessa eu conversei com a professora Tattiana Teixeira que possui doutorado em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia, atualmente ela é professora na Universidade Federal de Santa Catarina e autora do livro Infografia e Jornalismo: conceitos, análises e perspectivas, lançado em 2010.

Marco Vergotti (MV) – Como você descobriu a infografia?

Tatiana Teixeira (TT) – Sempre gostei muito de infografias, mas, do ponto de vista acadêmico, comecei a me interessar por elas quando passei a lecionar regularmente disciplinas vinculadas à produção laboratorial, no início dos anos 2000. Foi nesta época que me chamou atenção a ausência de disciplinas ou livros que discutissem a infografia mais a fundo, possibilitando uma produção regular e crítica desde a faculdade. Aí, quando terminei meu doutorado, adotei os infográficos como objeto de estudo e cá estou até hoje.

(MV) – E o que motivou o seu interesse por esse tipo de linguagem no jornalismo?

O livro Infografia e Jornalismo, da Profª Tattiana Teixeira

(TT) – Então…. Quando passei a orientar a produção de jornais laboratório percebi que havia, no geral, uma falta de conexão entre a chamada produção textual e o jornalismo visual desde as escolas, algo que, sabemos, acaba se repetindo na maior parte das redações em uma falsa dicotomia entre jornalistas de texto x jornalistas de imagem, seja lá o que isto queira dizer (rs). Mas foi quando criamos em Salvador um jornal laboratório totalmente dedicado ao jornalismo científico que a necessidade de investir em infográficos se tornou mais evidente e a parceria com alguns colegas foi fundamental para que a experimentação permitisse riscos maiores, como o investimento na produção de infográficos, por exemplo. Ali não tive dúvidas: este seria meu objeto de pesquisa e a eles dediquei especial atenção na maior parte das disciplinas que lecionei desde então. Não me arrependo.

(MV) – E como era feita a produção desse material em laboratório?

(TT) – Tentávamos simular uma redação, no sentido de proporcionar uma discussão entre equipes para chegarmos ao resultado final, no caso, um infográfico. Na UFSC, tínhamos alunos de Design e Jornalismo trabalhando em conjunto e isto foi fundamental para superar, em conjunto, os desafios postos. Os alunos se depararam com experiências diferenciadas que obrigaram a tomada de decisão e, mais do que isto, a compreensão da importância do trabalho específico da cada um e, ao mesmo tempo, de todos. Tivemos conflitos, é claro, mas eles foram essenciais para que discutíssemos a relevância de um trabalho interdisciplinar.

(MV) – No seu livro você propõe o uso de uma classificação da infografia sugerindo um modelo tipológico. O que te levou a criar essa proposta?

(TT) – Na bibliografia que lemos no NUPEJOC percebemos que havia muitas classificações, a maior parte delas ligada a elementos presentes ou ausentes em uma infografia. A minha preocupação sempre foi com uma tipologia que pudesse ajudar os futuros jornalistas e designers de notícia a produzir infográficos não tanto a partir de elementos específicos, mas de uma proposta, uma pauta, que possa conduzir os trabalhos e, de algum modo, auxiliar no diálogo dentro das redações. Até chegar a esta proposta que está no livro, fizemos alguns ensaios e tentamos aplicar a tipologia a vários exemplos diferentes. Acho que a tipologia proposta ainda pode ser aperfeiçoada – e assim espero que ocorra – mas pela experiência em sala de aula, creio que ela ajuda a fazer com que mesmo os mais leigos nesta área possam entender melhor a importância da infografia para os produtos jornalísticos. Se assim for, espero que no futuro novas gerações de infografistas também a apliquem em seu dia a dia profissional para facilitar o diálogo com repórteres e editores.

Proposta de classificação tipológica da infografia, por Tatiana Teixeira

(MV) – Você estuda a história da infografia no Brasil a partir dos anos 80. Como você vê a evolução e o momento atual?

(TT) – Pois é…. Creio que avançamos sob o ponto de vista dos recursos técnicos que reduziram – e muito – o tempo de produção de um infográfico, mesmo os mais rudimentares. Isto faz com que, do ponto de vista quantitativo, tenhamos avançado ao longo dos anos, com a presença cada vez maior de infográficos em jornais e, mais recentemente, de visualização de dados de toda ordem.

Porém, a estrutura narrativa dos infográficos continua basicamente a mesma, assim como as pautas e os usos. Por exemplo: em 1992 localizamos – com a ajuda do estudante Lucas Pasqual – um infográfico no Estadão que explicava o funcionamento da redação deles. A base é praticamente a mesma daquelas que vimos publicadas há menos de dois anos em revistas nacionais como a Saúde! ou a Superinteressante. Nos mais novos, é claro, temos mais detalhes, policromia, desenhos mais elaborados, mas a ideia é a mesma. Há outros, da década de 80, sobre algumas descobertas científicas ou inovações tecnológicas que, da mesma forma, hoje seriam diferentes muito mais em função das facilidades que as novas tecnologias proporcionam do que por uma questão de “evolução”, em sentido mais amplo.

Se isto é um problema ? Não creio, sobretudo porque percebemos avanços, se quisermos mesmo usar esta palavra, em outros recursos como a visualização de dados que está se aperfeiçoando a cada dia – apesar de – ou até mesmo por isto – ainda precisar ter mais clareza sobre o “para quem” é destinada. Explico: se no caso das infografias parece consenso a necessidade de um certo didatismo, na visualização de dados não é incomum o uso de recursos que mais complicam do que facilitam a compreensão contextualizada de certos dados.

No caso das infografias, o que me preocupa é que esta zona de conforto – à qual se chegou depois de muitos anos de experimentações e riscos – obtida nos impressos, parece ditar as regras para tablets e outros suportes mais novos. No geral, os infográficos ainda parecem ser pensados para uma plataforma e adaptados para outra – o que acontece até mesmo em algumas infografias produzidas para televisão – e isto é um perigo.

Precisamos arriscar mais, pois cada suporte tem suas características e é preciso compreendê-las, embora, é claro, a tecnologia esteja evoluindo em uma velocidade assustadora e nas redações não se tem lá muito tempo e incentivo para tentativa e erro. Por isso defendo que as universidades – em especial os cursos de jornalismo e de design – tomem a dianteira na produção laboratorial que pense na inovação como pressuposto, inclusive na produção de infográficos para diferentes plataformas, leitores e realidades.

Defendo que as universidades – em especial os cursos de jornalismo e de design – tomem a dianteira na produção laboratorial que pense na inovação como pressuposto, inclusive na produção de infográficos para diferentes plataformas, leitores e realidades.

(MV) – Sobre a clareza a que você se refere, eu gostaria de saber se o leitor brasileiro entende o que é infografia ou está adaptado a ela?

(TT) – Eu acredito que sim. Tanto que, por volta de 2000, os leitores reclamaram quando a Superinteressante diminuiu o uso de infografias. As reformas recentes dos jornais têm priorizado o uso de infografias. Então, creio que há indícios fortes de que os leitores podem não saber o conceito, mas reconhecem o recurso como algo relevante. E, claro, tem publicações que são totalmente identificadas com os infos, como a Mundo Estranho. Nestas, este reconhecimento certamente é ainda maior.

(MV) – No Brasil existem poucas publicações e cursos voltados para o tema. Porque isso ocorre?

(TT) – Eu acho que é uma conjugação de vários fatores. O Rafael Alves, que defendeu sua dissertação de mestrado semana passada aqui na UFSC, comprovou esta realidade a partir de um levantamento criterioso, comparando a formação em jornalismo no Brasil e na Espanha.

No nosso caso, pesa um histórico de pouca valorização do que recentemente se convencionou chamar de “jornalismo visual”. A maior parte dos cursos de jornalismo têm historicamente, quando muito, 10% de sua carga horária destinada a disciplinas como Produção Gráfica, Editoração, Semiótica ou Infografia, mais especificamente. Design de notícia, então, é uma expressão quase inexistente nas grades curriculares seja no Jornalismo, seja no Design.

Aí, virou um círculo vicioso – não se valoriza este campo na faculdade, poucos profissionais enveredam por estas áreas, os que enveredam raramente voltam-se para uma carreira acadêmica e, quando o fazem, nem sempre poderão discutir infografia a fundo porque não há disciplinas curriculares voltadas para isto. Fecha-se o ciclo. Mais uma vez, a universidade tem de mudar esta perspectiva porque o mercado – ao menos nos grandes centros não só no Brasil, mas em outros países – cada vez mais se convence de que o Design da Notícia é fundamental não só para atrair leitores, mas para melhorar a relação destes com os produtos jornalísticos, em sentido amplo.

Felizmente, ao menos em cursos de pós-graduação, temos visto mais pessoas estudando infografia – este é um bom sinal.

Design de notícia é uma expressão quase inexistente nas grades curriculares seja no Jornalismo, seja no Design.

(MV) – Na sua opinião existe uma escola infográfica brasileira?

(TT) – O que percebo quando comparo a nossa produção com a de outros países é que embora no caso das hardnews sigamos modelos estabelecidos – até por questões óbvias que têm a ver com tempo de produção e o tipo de temática/pauta, por exemplo – o mesmo nem sempre ocorre quando abordamos temas que permitem adotar recursos diferenciados.

Neste sentido, me chama muito a atenção o uso do humor e temos alguns bons exemplos, como um infográfico sobre o tráfico de drogas em favelas que, apesar do tema árduo, tem tiradas de humor/ironia semelhantes àquelas que encontramos em alguns trabalhos como os do Nigel Holmes, por exemplo. O info sobre as cirurgias de mudança de sexo, também da Super, é outro exemplo de como usamos a irreverência na dose certa na produção de infográficos e, por fim, cito a infografia da Playboy que explica o buga-buga (as festas de Berlusconi)- ela também revela esta nossa capacidade de mesclar humor, irreverência e inovação para tratar de temas distintos.

(infografia: Emiliano Urbim, Renata Steffen e Alex Silva | Superinteressante )

Estas características aparecem em diferentes trabalhos de diferentes profissionais – embora aqui eu tenha citado dois do Iria – e indicam que há, se não uma escola no sentido clássico do termo, um conjunto de influências que se repetem ao longo do tempo. A forma de narrar também é muito característica nossa – de nossa produção – e outro traço que me chama a atenção é a ausência de excessos, de detalhes que podem ser supérfluos. Mas enquanto lhe respondo, penso que está na hora de sistematizarmos isto. Creio que caracterizar esta “escola” pode ser um belo desafio para quem se interessa por infografia.

(As festas de Berlusconi; infográfico: Luiz Iria, Marcelo Garcia, Alexandre Jubran e Aluísio C. Santos | Playboy)

(MV) – No caso do ‘Buga-Buga’ da Playboy, uma corrente mais purista diz que isso não é infografia e sim arte. O que você pensa sobre isso?

(TT) – Uma coisa não exclui a outra, na minha opinião. Podemos ter infos mais ou menos elaboradas, isto é natural. Afora que é preciso compreender a proposta editorial da publicação. Uma info para a Playboy não tem como seguir as mesma lógica gráfica ou estética de uma para a Mundo Estranho ou mesmo para um jornal diário. Sem contar que se formos discutir o que é Arte esta separação fica ainda mais complexa…

(MV) – E quais são as referências que a infografia brasileira segue?

(TT) – Os trabalhos desenvolvidos hoje têm muita influência de precursores como Gerson Mora, Léo Tavejnhansky, Mario Kanno, Ary Moraes, Luiz Iria…. Nos anos 80, sem dúvida, as influências de jornais como o USA Today, The New York Times ou de profissionais como o Nigel Holmes eram mais nítidas também, assim como hoje percebe-se, ainda, uma influência grande do que se produz no NYT – em especial em termos de visualização de dados – e em veículos espanhóis. Mas já temos uma identidade bem própria, bem específica, que às vezes torna até difícil precisar quem influencia quem.

(MV) – Você acredita que algum dia seremos referência?

(TT) – Sinceramente, já somos. Temos infos exportados para publicações de outros países, temos um reconhecimento bastante significativo. Eu arrisco dizer que podemos não ser unanimidade, mas que o trabalho desenvolvido no Brasil influencia infografistas de outros países com certeza.

Eu arrisco dizer que podemos não ser unanimidade, mas que o trabalho desenvolvido no Brasil influencia infografistas de outros países com certeza.

(MV) – Obrigado, Tattiana!

(TT) – Obrigado!

 

 

Agradecemos à profª Tattiana a sua disponibilidade em nos conceder esta entrevista e você pode acompanhar as suas atualizações no Twitter (@tattiana).

Escrito por Tiago Veloso

Tiago Veloso is the founder and editor of Visualoop and Visualoop Brasil . He is Portuguese, currently based in Bonito, Brazil.

Siga:

20 respostas para “Conversa com… Tattiana Teixeira”

  1. Dewitt Heacox disse:

    Very nice post. I simply stumbled upon your weblog and wanted to say that I have really loved surfing around your weblog posts. After all I’ll be subscribing for your feed and I’m hoping you write again soon!

  2. hvac subject disse:

    Hi colleagues, nice paragraph and nice urging commented at this place, I am truly enjoying by these.

  3. Hey! I know this is somewhat off topic but I was wondering
    if you knew where I could find a captcha plugin for my
    comment form? I’m using the same blog platform as yours and
    I’m having problems finding one? Thanks a lot!

  4. Hello there! This article could not be written any better!
    Looking at this post reminds me of my previous roommate!
    He always kept talking about this. I’ll send this post to him.
    Fairly certain he will have a very good read.

    Thanks for sharing!

  5. Wow because this is excellent work! Congrats and keep it up.
    [url=http://www.ladartleague.com/barcelona.no]fotballdrakter med trykk[/url]

  6. nam binh than disse:

    What’s up to all, how is the whole thing, I think every one is getting more from this web page, and your views are fastidious in support of new viewers.|

  7. We are a group of volunteers and starting a new scheme in our community.
    van cleef mini necklace replica

  8. What’s up to all, how is everything, I think every one is getting more from this web page, and your views are good in favor of new users.|
    Fälschung cartier love halskette

  9. I think other website proprietors should take this website as an model, very clean and great user friendly style and design.
    repliques bague cartier femme

  10. Wow, wonderful blog layout! How long have you been blogging for? you make blogging look easy. The overall look of your website is magnificent, let alone the content!|
    collier imitation van cleef alhambra

  11. Sites we Like…

    Here are some absolutely unrelated web sites to ours, on the other hand, you can take a second and visit the website…

  12. You must see this website …

    We came across a cool web page that you may possibly enjoy visiting …

  13. Read was interesting, stay in touch….

    Exceptionally well written!

  14. shampoo label disse:

    You should check this out…

    Here are some entirely unrelated web-sites to ours, on the other hand, just take a second to visit …

  15. Just check this …

    Just take a second to stop by the web sites we have linked to …

  16. You should check this out…

    Here are some completely unrelated internet sites to ours, on the other hand, just take a moment to visit …

  17. Steampunk disse:

    Recent Blogroll …

    You may take a second to visit the subject material from this web sites we’ve linked to on this post…

  18. Recent Blogroll …

    You may take a second to go to the subject material from this internet sites we have linked to on this post…

  19. Wonderful story …

    Here are a handful of unrelated data, nevertheless seriously worth taking a your time to visit this website

  20. Websites we think you should visit…

    Sites of interest we have a link to…

Deixe uma resposta